terça-feira, 5 de junho de 2012

Texto para rezar no feriado.


ISTO É O MEU CORPO



A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice,

                                          onde se bebe o vinho da alegria e da salvação,

                                          inserido no CORPO místico e cósmico de Cristo.

Só haverá futuro digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão,

                                                                       saciados da fome de pão e de beleza. (Frei Betto)



“Isto é o meu corpo” (Mc. 14,22), nos diz Jesus. Ele poderia ter dito: “Esta é minha vida, esta é minha história, eu mesmo...”. Mas diz: “Isto é meu corpo”; e, contido nele, sua maneira de estar na vida e de situar-se nela, seu modo de olhar, de sentir, de estar presente...

O único recurso de que Jesus dispõe antes de ser preso é seu próprio corpo. Não tem outra riqueza nem outro dom que oferecer. Esse corpo era sua vida, feita doação.

Como o corpo da mulher, capaz de conter e alimentar com seu sangue à criatura que carrega dentro de si, o Corpo de Jesus é um corpo aberto e vulnerado, quebrado e repartido. Constantemente doado.

No encontro com este Corpo podemos nos reconhecer e perdoar mutuamente, criar comunidade, multi-plicar o amor e recolhê-lo para que nada se perca.



Como viveu Jesus em sua corporalidade a relação com Deus e com os outros e como nós somos convidados a viver?

Aqui precisamos encontrar a justa proximidade para nos relacionar com o corpo e estabelecer um vínculo sadio com ele. Afinal, nossas maneiras de relacionar-nos estão configuradas por ele. Não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros que não ocorra em nosso corpo.

O nosso corpo nos pede espaço, tempo, atenção, alimento e, sobretudo, nos pede descanso e bem-estar, inspiração e contemplação... O corpo não é só a unidade de nossos membros, mas a presença de nossa pessoa; por ele estamos e somos.

É com razão que se pode falar da sabedoria do corpo. O corpo não sabe mentir. Se desejamos conhecer nossa verdade num momento determinado, o caminho correto não é dirigir-nos à nossa cabeça em busca de explicações, mas perguntar a nosso corpo: “como você se sente?”

Diante de nossa tendência a “fugir” para o passado ou para o futuro, nosso corpo nos traz sempre ao presente. Diante de atitudes de nostalgia ou de ansiedade, a atenção ao corpo nos abre o caminho para viver a profundidade do momento, do aqui e agora, o único que temos realmente ao nosso alcance.

O corpo é o grande aliado na tarefa de ser pessoa, de conhecer-nos e de viver-nos de um modo adequado.



Uma boa concepção do corpo supõe evitar a parcialização, a polarização e a dicotomia e buscar a harmo-nia e a integração. Para ter uma visão e intuição completa do corpo é necessário contemplá-lo em sua totalidade e em sua originalidade: é “meu” corpo; conheço-o e reconheço-o; sei descrevê-lo;

                                              não é um estranho para mim.

Com, em e pelo corpo, vivo minha história, caminho pela vida e tenho minha aventura de crescimento e

de maturação, de amor e de conhecimento, de encontrar-me com os outros e comigo mesmo, com meus desejos e minhas fobias, minhas alegrias e minhas dores, minhas esperanças e meus desesperos, minhas desilusões e minhas vitórias... Tudo isso está escrito em minha “carne”.

Este corpo me limita e me define. Cada corpo é original e irrepetível; o meu também.

Ele me situa no espaço e no tempo, me separa e me une aos outros; conhece o que é bom e belo e também o que é desagradável e mau.

Meu ser profundo, meu ser essencial se manifesta, se abre para fora através de meu corpo.

Os gestos, o olhar, o tom de voz são autenticamente a transparência do coração. O corpo é o espelho do meu interior.

Não há dúvida que quando nos encontramos com uma pessoa rica em bondade, entrega generosa aos outros, simplicidade e humildade, de coração grande e capaz de perdoar, nos damos conta que seu rosto é luminoso, sereno, cheio de uma beleza única, interior; irradia alegria, serenidade, harmonia, paz...



O corpo é o companheiro inseparável de nosso caminho. É preciso começar por sentí-lo, percebê-lo, escutá-lo. Mas é preciso ir mais longe: podemos afirmar que o corpo se transforma em caixa de resso-nância da “voz de Deus” que nos previne contra caminhos equivocados e nos orienta para uma vida natural e plena.

O corpo é “lugar”  teológico, lugar da manifestação de Deus; neste sentido é morada do divino, habi-tação do Espírito enquanto participa, pensa, sente, deseja, decide.

Quem não escuta nem percebe seu corpo não pode compreender o sentido da vida, do amor, das rela-ções... pois cairá no narcisismo de seu próprio ego.

Não é possível viver feliz sem relações amistosas e próximas com o corpo, para poder entendê-lo e expressar-se adequadamente com ele. Para conhecer-se é necessário acolher o corpo, querer o corpo, observar o corpo, olhar para dentro do corpo com atitude reverente.

Minha própria casa é meu corpo; o templo onde Deus se revela a mim. Só eu posso habitar e possuir meu corpo. Eu me identifico com meu corpo, sem o qual não posso viver. Deus anima meu corpo; mas não pode habitar em mim a graça de Deus sem a colaboração e a abertura de meu corpo.

Eu sou meu corpo animado, com vida e com sentido. Eu decido com meu corpo e graças a ele.



Nosso corpo constitui nossa presença no mundo; a acolhida do próprio corpo nos projeta para uma relação sadia com o corpo do outro.  Segundo Mt. 25,31-43, é o cuidado do corpo do outro que deter-mina nossa relação com Deus (Mt. 25,31-46). O corpo do ferido, do faminto, do preso... tornam-se “terri-tórios sagrados” onde crescemos e nos humanizamos; são os “lugares” nos quais Deus se faz “totalmente, humanamente, concreto para nós”.

O corpo é um documento histórico: há corpo burguês e corpo proletário, corpo de cidade e corpo de roça; há corpos explorados e corpos que são só força de trabalho; corpos que são modelos anatômicos; os “corpos empobrecidos” gritam a Deus por justiça, por alimento, por saúde e por novas relações  entre os humanos e o cosmos, gritam a Deus por viver.

O corpo desrespeitado, expropriado e dominado de muitas pessoas, clama a liberdade, a paz, a vida.

O corpo é lugar de êxtase e de opressão, de amor e de ódio, lugar do Reino, lugar de ressurreição.

O corpo é espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega...



Texto bíblico: 1Cor. 6,15-20  Mc. 14,12-16.22-26



Na oração: Você vive a relação com seu corpo como obje-

                     to de suspeita ou como lugar de encontro?

Sinta que você é um corpo de argila, mas um corpo que carrega o “Sopro” do Espírito.

Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você a força da inspiração e da expiração para que todo o seu corpo seja iluminado e plenificado.

“Tomai, Senhor, e recebei”, toda minha corporalidade, com suas pulsões, seus limites e sua energia profunda. Que não fique nada em mim onde Tu não entres. Nenhum quarto escuro nem fechado que não seja invadido por Ti”.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Texto do Padre Adroaldo para a festa da Trindade.


SS. Trindade

“A Santíssima Trindade é a melhor comunidade” (CEBs-Brasil)

“Eu sou o Pai que cria,
O Filho que se une a todo o criado,
O Espírito que dignifica tudo.
O Misericordioso que espera o filho extraviado
O Manso que carrega o jugo pesado
Vosso Consolo, quando desesperais.
Sou o Semeador que espalha a semente
Sou o Grão que morre sepultado
         Sou o Alento de Vida que tudo renova.
EU SOU TRINITÁRIO:
                                                                                                       um Deus COMUNIDADE
                                                                                                       um Deus PARTICIPAÇÃO
                                                                                                       um Deus INTERRELAÇÃO
                                                                                                       no SEIO do qual cabe TUDO.




Afirma-se que o dogma da Trindade é o mais importante de nossa fé católica, pois estamos diante do maior Mistério que os olhos não viram, os ouvidos não escutaram, nem a mente consegue compreender... Nada do que podemos definir, pensar ou dizer sobre a Trindade é adequado a seu Ser mais íntimo.
A Trindade não é uma simples verdade para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trini-tário quer expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é comunicada.
O mais urgente neste momento para o cristianismo, não é explicar melhor o dogma da Trindade, e menos ainda, uma nova doutrina sobre Deus Trino. Seria, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus. Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para ver.
Tudo o que “sabemos” da Trindade pode ser um estorvo para viver sua presença vivificadora em nós. Ca-lar sobre Deus, é sempre mais exato que falar. Dizem os orientais: “Se tua palavra não é melhor que o silêncio, cala-te”. O decisivo é viver o Mistério da Trindade a partir da adoração e da partilha fraterna.
Grandes teólogos fizeram profundos estudos sobre a Trindade, tratando de pensar conceitualmente o mis-tério de Deus. No entanto, eles mesmos dizem que, para “saber” de Deus, o importante não é “refletir” muito, mas “saber” algo do Amor.

O mistério de Deus Uno e Trino é fruto da experiência de revelação progressiva na história da Salvação. “Deus é UM, mas não está jamais só”. Deus não é um ser isolado, distante da Criação, solitário. É um Deus comunitário, família, sociedade, fraternidade, etc... Por isso, o cume de toda a revelação bíblica é esta: “Deus é Amor”, ou seja, Deus não é uma realidade fria e impessoal, um ser triste, solitário e narcisista. E o Amor nunca é solidão, isolamento, mas comunhão, proximidade, diálogo, aliança...
O Deus revelado por Jesus é Amor e aproximar-nos do Deus Amor é descobrir a Trindade.
Em Deus o Amor não é uma qualidade como em nós, mas sua essência. Se Deus deixasse de amar um só instante, deixaria de ser Deus. O movimento que parte do Pai, passa pelo Filho e se consuma no Espírito é um movimento de Amor sem fim.
O dogma da Trindade, portanto, nos liberta do Deus Poder e nos lança nos braços do Deus Amor.
O Deus “todo-poderoso” é o contrário do Deus Trino. Deus é Amor e só amor.
Não podemos imaginá-lo como poder impetrável, fechado em si mesmo. Em seu ser mais íntimo, Deus é vida compartilhada, diálogo, entrega mútua, abraço, comunhão de pessoas. O amor trinitário de Deus é amor que se expande e se faz presente em todas as criaturas.

Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina que só vivemos, se com-vivemos. Nossa vida deve ser um espelho que em todo momento reflete o mistério da Trindade.
Somente na medida em que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus Comunidade.
                            “Só corações solidários adoram um Deus Trinitário”.
Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a comunicação.
- o ser humano não é feito para viver só; ele é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;
- ele necessita com-viver, viver-com-os-outros;
- é essencial descobrir o sentido e a vivência da relação com os outros, da fraternidade...
- o sentido da vida em comum é um dom de Deus, que nos foi dado a todos.
Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para a comunhão...
Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12)
Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à coopera-ção, à acolhida, à solidariedade...
A fraternidade, a vida em comum se mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua gratuita...
O amor é olhar o outro com olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só desejo que o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como é...

Aquí está a grandeza do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos dar e receber vida..., estamos saboreando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte.
Por isso, quem vive o amor a partir da Trindade, aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, é capaz de compadecer-se dos mais pobres e excluídos, pode entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno de Deus.
Nesse sentido, o melhor caminho para aproximar-nos do mistério do Deus Trindade não são os tratados teológicos que falam dele, mas as experiências amorosas que compartilhamos na vida. Só encontramos Deus com o coração.
Quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da Trindade amorosa.

Textos bíblicos:  Rom. 8,14-17   Mt. 28,16-20

Na oração: Deus é amor, mas esse amor não corresponde à nossa idéia do amor.
 Deus é o que ama, o amado, e o amor. Os três ao mesmo tempo.
 Incompreensível para nós, porque em nós são realidades diferentes.
 Em nós sempre haverá um sujeito que ama, um objeto amado e o amor mesmo.
A criação é a mais pura manifestação desse Deus.
Em toda criatura fica refletida Sua maneira de ser.
Em todo ser criado está o amante, o amado e o amor.
O ser humano tem a capacidade de entrar conscientemente nessa dinâmica. (Marcos Rodrigues)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Próximo domingo é Festa de Pentecostes !!!


PENTECOSTES: a coragem de deixar-se conduzir pelo Espírito

“O Espírito Santo é o bom humor de Deus” (D. Pedro Casaldáliga)

O relato da aparição do Ressuscitado aparece unido ao dom da paz, da missão, do Espírito e do perdão.
João, que não relata o episódio de Pentecostes, já havia situado o dom do Espírito no momento mesmo da morte de Jesus que, “inclinando a cabeça, entregou o espírito”. O que agora faz é confirmá-lo como dom do Ressuscitado.
A imagem de “soprar sobre eles” contém uma riqueza profunda: significa compartilhar o que é mais “vital” de uma pessoa, sua própria “respiração”, seu mesmo espírito, todo seu dinamismo; trata-se de uma imagem que nos faz sentir a respiração comum que compartilhamos com Ele e com todos os seres.
As angústias mais radicais do ser humano são reunidas e transformadas pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte. A voz sopra onde quer, a Palavra vem do alto, o Espírito chega impetuoso rompendo o silêncio da morte. O Vento traz a vida, mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

De fato, “Espírito” parece ser um dos nomes mais adequados para referir-se a Deus, enquanto Dinamis-mo de Vida e de Amor que faz com que tudo exista. Desde o começo do tempo e desde antes, está acostumado a abrigar sua criação e habitá-la, a fecundar, remover e renovar tudo quanto existe.
Segundo o livro do Gênesis, no início da Criação a multiplicidade dos elementos – “águas” – repre-sentava o caos. Ali o Espírito “pairava”, criando uma integração harmoniosa – “cosmos”.
Ele é também Ela e todos os gêneros: é feminino em hebraico (ruah), neutro em grego (pneuma) e masculino em latim (spiritus).
O Espírito é dinamismo, vida, relação, comunhão divina. É alento, vento, água. É ungüento, é consolo, é companhia. Espírito é invenção, é fonte de criatividade, de autêntica novidade. É fonte de novas possibilidades no mundo, energia inaugural de novas auroras.
É a energia materna de Deus que aquece o coração da Criação, e que tudo sustenta.

Na bíblia hebraica, o Espírito apresenta forma feminina: é “a Ruah”, a brisa, o “esvoaçar” de Deus sobre as águas, sopro impetuoso que gera vida, ar que impulsiona, alento ou respiração que mantém a vitalidade dinâmica do ser humano. Hálito, sopro, vento, respiração, força, calor... com nome feminino que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.
Há um antigo ícone medieval, uma pintura muito interessante que se encontra em uma Igreja de Urschalling, na Alemanha, que representa a Trindade, onde o Espírito, entre as figuras masculinas do Pai e do Filho, é representado com um rosto e um corpo de mulher. A Ruah, em hebraico, é sopro que possibilita a existência, o solo de tudo o que vive, é um termo feminino: “a Espírito”.
Nos relatos da Criação, a Ruah de Deus gera harmonia no caos, dando a cada criatura seu lugar, o espaço que precisa para desenvolver suas possibilidade. Nessa relação adequada, cada erva, cada montanha, cada ser que vive, tem seu lugar e seu sentido.

Hoje somos conscientes e podemos agradecer essa presença da Ruah como presença feminima naquelas e naqueles que se empenham pela paz e pela justiça, em sua cumplicidade com os ciclos que favorecem a vida, na contribuição do ecofeminismo para a integridade da Criação.
Desatar a dimensão feminina que mulheres e homens trazemos dentro de nós é sinal do movimento da Ruah. Acolher em nós seu potencial de ternura, de cuidado e de resistência frente a todas aquelas situa-ções e forças que desintegram a vida; fazer da colaboração, da interdependência, do diálogo e da abertura às diferentes culturas e às diferentes tradições espirituais maneiras novas e necessárias de situar-nos no mundo.

O ser humano vive tencionado entre dois pólos, entre luz e escuridão, entre céu e terra, entre frag-mentação e unidade, entre espírito e instinto, entre solidão e vida comum, entre medo e desejo, entre amor e ódio, razão e sentimento... Essa é a terra propícia onde atua o Espírito. Onde há mais carência, vulnerabilidade, pobreza... há mais criativas possibilidades. Nenhuma situação pode afastar-nos de Sua visita; pelo contrário, maior desamparo, maior proximidade; maior sofrimento, maior unção.
Toda terra baldia é boa para o Espírito. Ele é o buscador incansável de fragilidades e de conflitos. No não-amor, na não-existência, na não-possibilidade, vem com um “sim” ousado e forte que re-cria de novo nossa história, estabelecendo o “cosmos” (harmonia e beleza) em nosso “caos” existencial.


Viver uma “vida segundo o Espírito”  é deixar-nos recriar, deixar-nos mover, transformar, alargar.
Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença.
De imediato, nos sentimos livres do peso que fomos arrastando durante tanto tempo e, por uns instantes, nos atreveremos a “viver no Vento”.
Eduardo Galeano tem uma bonita história sobre o vôo do Albatroz que poderia ser uma parábola sobre a vida conduzida pelo Espírito:
“Vive no vento. Voa sempre, voando dorme. O vento não o cansa nem o desgasta. Aos sessenta anos, continua dando voltas e mais voltas ao redor do mundo.
O vento lhe anuncia de onde virá a tempestade e lhe diz onde está a costa. Ele nunca se perde, nem esquece o lugar onde nasceu; mas a terra não lhe pertence, tampouco o mar. Suas patas curtas mal conseguem caminhar, e flutuando se enfastia.
Quando o vento o abandona, espera. Às vezes o vento demora, mas sempre volta: busca-o, chama-o, e o conduz. E ele se deixa conduzir, se deixa voar, com suas asas enormes planando no ar”..

Falar do Espírito e celebrar Pentecostes é, portanto, celebrar a festa, a vida. Ele é o Sopro último, o Dinamismo vital que pulsa em todas as expressões de vida que podemos ver e que nelas se manifesta. Não há nada onde não possamos percebê-lo, nada que não nos fale d’Ele.
Ele é o“ambiente de realização do ser humano”, porque n’Ele a vida adquire profundidade, consis-tência..., dando-nos firmeza à vontade, equilíbrio aos sentimentos e iluminação à mente
Não é estranho que, com o Espírito, Jesus envia seus discípulos em missão: é o mesmo Espírito – seu sopro – aquele que quer manifestar-se em nós e quer que nos deixemos conduzir por Ele, como aconteceu com Jesus.

Textos bíblicos:  Atos 2,1-11   Jo. 20,19-23

Creia no Espírito Santo, pois “sem o Espírito Santo, Deus está distante, Cristo permanece no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja é uma simples organização, a autoridade é tirania, a missão é propaganda, a liturgia é arcaismo, e a vida cristã é uma moral de escravos.
Mas no Espírito, e numa sinergia indissociável, o cosmos é enobrecido pela iluminação do Reino, o ser humano luta contra o egoísmo, o Cristo ressuscitado se faz presente, o Evangelho é uma força vivifica-dora, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a autoridade se transforma em serviço, a liturgia é memori-al e antecipação, e a ação humana é divinizante”. (Patriarca Ignacio de Antioquia, em Upsala, 1968).

                                          Em nome do Pai, do Filho e da Santa Ruah. Amém.