terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Pedro Fabro

Amigos e amigas, foi canonizado o beato Pedro Fabro, um dos primeiros companheiros de Inácio de Loyola.
O papa Francisco revelou ao autor deste artigo que ele sempre se inspirou no modo de proceder deste novo santo.
Mais um santo para ser invocado, sobretudo nos momentos de discernimento e tomada de decisão em nossas vidas.
Um abraço a todos
Pe. Adroaldo sj





Pedro Fabro: a mística na vida cotidiana
Artigo de AntonioSpadaro




A experiência de Pedro Fabro deve ser melhor compreendida e estudada para se entender o estilo e o modo de governo do Papa Francisco. Publicamos aqui um trecho do novo livro de AntonioSpadaro sj, Pietro Fabro. Servitoredellaconsolazione (Ed. Ancora, 144 páginas). Oartigo foi publicado no jornal Avvenire, 14-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A minha cópia do diário espiritual de Pedro Fabro, chamado de Confissões ou Memorial, é um livro amarelado e de capa já desgastada, publicado em 1980. Eu não me lembro exatamente há quantos anos eu trago esse livro comigo, mas é há muito tempo. Eu o li ao longo dos anos de formação como jesuíta e o terminei recentemente.Fabro é um dos jesuítas menos conhecidos.
Todos conhecem Francisco Xavier, o segundo companheiro de Inácio de Loyola, mas poucos conhecem Pedro, savoiano, que, ao contrário, foi o primeiro. Talvez por isso ele me fascinou: o fato de ter sido o primeiro e de ter ficado na sombra. Sem Pedro, a Companhia de Jesus não existiria. O que me atraiu mais foi a sua experiência de amizade profunda com Inácio, que à época foi definido pelo teólogo espanhol rigorista Pedro Ortiz como "um extravagante espanhol que fomentava a desordem de forma inquietante".

Fabro escreveu no seu Memorial: "Vivemos sempre juntos, compartilhando o quarto, o refeitório, abolsa; e depois ele havia sido meu mestre de vida espiritual, dando-me a possibilidade de ascender ao conhecimento da vontade divina e da minha própria. Foi assim que nos tornamos uma só coisa nos desejos, na vontade e no firme propósito de escolher a vida que agora todos nós levamos, aqueles que fazemos ou faremos parte desta Companhia, da qual eu não sou digno".
Eu imaginava esses dois homens: estudantes da Universidade de Paris que compartilhavam o quarto de aluguel; um basco, um savoiano.
A sua profunda amizade, que nasceu enquanto Pedro, com pouco mais de 20 anos, ajudava Inácio, com quase 40 anos, a entender Aristóteles e os filósofos escolásticos, é o primeiríssimo início daquela que seria a Companhia de Jesus (…).
Fabro viveu o clima fluido e turbulento da primeira metade do século XVI parisiense e por isso é portador de uma sensibilidade moderna. Ele encarnou uma abertura mental e espiritual com relação aos desafios da época, sobretudo aReforma Protestante. Se algumas das suas regras ecumênicas tivessem sido acolhidas e postas em práticas no seu tempo, talvez a história religiosa da Europa teria sido diferente. Ele não era um sonhador, mas sim um místico de profunda doçura.
A experiência mais incisiva dos seus anos de formação foi representada pelo encontro com o pensamento da tradição renano-flamenga, ocorrido através da frequentação na Cartuxa de Vauvert. Mas lendo o seu “Memorial”, um diário interior, justamente, entende-se que a sua mística tem a ver com a vida cotidiana, gasta-se nos detalhes, aplica-se aos sentimentos que acompanham os momentos da vida: é plena familiaridade com Deus.

Fabro revela-se mestre tanto no empenho e coenvolvimento exterior, quanto no "discernimento dos espíritos": não só como grande psicólogo, mas também como autêntico buscador da vontade de Deus (…).
A vida interior, para ele, é "sentir e saborear as coisas internamente", como escreve Inácio nos seus Exercícios Espirituais. Na sua breve vida,Pedro saboreou a existência, sentiu o doce e o amargo, provou "consolação" e "desolação", mas viveu tudo com a alma. E todo o seu mundo era animado, vívido de "moções espirituais".
Outro motivo de fascínio: o fato de ser peregrino incansável, caminhante nato. Aproveitava longas viagens, geralmente feitas a pé, para disseminá-las de oração e de atividades sacerdotais, mostrando, assim, também para nós hoje, como se pode conjugar uma vida ativa extraordinária com uma profunda união com Deus. Esse Fabro, doce místico peregrino, incansável caminhante da grande familiaridade com Deus, peculiar “coincidentiaoppositorum”, me impressionava porque eu não conseguia aferrá-lo totalmente. E ainda não consigo hoje.

Portanto, durante a minha entrevista de fim de agosto de 2013, quando perguntei ao Papa Francisco qual era o seu jesuíta preferido, tive um choque quando ouvi o nome de Pedro Fabro. Descobri, assim, que o então padre Jorge Mario Bergoglio, provincial dos jesuítas da Argentina, tinha até encomendado uma edição do “Memorial” a dois jesuítas especialistas, Miguel A. Fiorito e Jaime H. Amadeo. Eu soube que a sua edição preferida é a editada porMichel de Certeau. Dentre outras coisas, o papa cita um pensamento de Fabro na sua primeira exortação apostólica: "O tempo é omensageiro de Deus" (Evangeliigaudium, n. 171).
Por que ao papa agrada particularmente o primeiro companheiro de Inácio? Ele me respondeu substancialmente dando uma lista de razões: "O diálogo com todos, mesmo os mais afastados e osadversários; a piedade simples, talvez uma certa ingenuidade, a disponibilidade imediata, o seu atento discernimento interior, o fato de ser um homem de grandes e fortes decisões e ao mesmo tempo capaz de ser assim doce, doce…".
Nas suas palavras, eu relia a minha experiência de Fabro, que permaneceu então substancialmente incompleta, interrompida também na leitura do seu diário. E, ao mesmo tempo, eu entendia o quanto Fabro foi e ainda é realmente um modelo de vida para ele.

No dia 14 de junho de 2013, no seu discurso para a redação da La CiviltàCattolica, o Papa Francisco tinha dado aos redatores, como consigna, três palavras-chave: diálogo, discernimento,fronteira. São as palavras-chave da vida dePedro Fabro, unidas a uma infinita doçura de trato que converteu muitos, mais do que muitas palavras. 
Michel de Certeau define Fabro simplesmente como o "padre reformado", para o qual a experiência interior, a expressão dogmática e a reforma estrutural são intimamente indissociáveis. Parece que posso entender, portanto, que o Papa Francisco se inspire justamente nesse tipo de refor-ma. Fabro está convicto de que é no nível da complexidade dos sentimentos e dos afetos espirituais – em que o homem aprende a dialogar com Deus e a sentir o seu mistério – que se tomam as grandes decisões, mesmo aquelas "estruturais".
Para Fabro, Deus age e atua no coração do homem, transformando-o. A confiança na ação de Deus no fundo do ser humano o distingue de Lutero, atento demais ao seu estado de pecador para crer nessa transformação interior. Fabrovê florescer a presença de Deus em toda a par-te; Lutero sempre espera pela sua vinda, que, única, pode salvar da condenação. Mas transformação interior não significa espiritualismo. Longe de Fabro, como de Bergoglio, aquela que o próprio papa definiu como "a constante tentação das tendências pseudomísticas daexistência cristã". Longe de ambos "aquela espécie de cristianismo espiritual que estava perdendo o contatocom a cotidianidade e a vida concreta".

Para Fabro, assim como para Bergoglio, vale o que escreveu Inácio de Loyola: Deus se comunica com cada um de nós com "moções" interiores, "move e atrai a vontade". Esse espaço de encontro e de atração, rico em afetos, não se contrapõe, de fato, à razão nem à gestão da vida e aos seus projetos práticos, mas, ao contrário, os anima: "O coração conjuga a ideia com a realidade", escreveu tempo atrás o então cardeal Bergoglio. A experiência de Fabro, portanto, deve ser melhor compreendida e estudada para se entender o estilo e o modo de governo do Papa Francisco.

IHUonline

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Texto para o NATAL



NATAL: conectar nossa vida com o Mistério da Gruta de Belém

“Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)

Se a história da Encarnação começa na Gruta, quer dizer que a fé em Deus implica prestar atenção na manifestação do amor materno e na frágil beleza do recém-nascido. É por esse caminho que podemos chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que podemos chegar ao conhecimento de nós mesmos. No momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.
As grutas sempre despertaram fascínio nos seres humanos; possuem uma força atrativa e guardam segredos em seu interior. Ao mesmo tempo simbolizam o desejo permanente de retornar ao ventre materno, lugar de segurança, de aquecimento...
A contemplação do Nascimento de Jesus nos impulsiona a fazer a travessia para o interior de uma Gruta: ali o Grande Mistério se faz visível e revelador do sentido da existência humana.
“Conectar-se” com a Gruta de Belém é despertar o que há mais “divino” em nós.
Trata-se de “entrar” nela com suavidade, de percebê-la e fazê-la descer até o coração, de convertê-la em matéria de consideração e oração silenciosa e surpreendida.
A contemplação do Menino na Gruta revela que Deus assumiu a aventura humana desde seus começos até seu limite (vida, amor e morte). Deus se fez “tecido humano”, revestiu o ser humano de sua própria glória, plenificou-o de sentido e de finalidade. No nascimento de Jesus é revelada a grandeza, a dignidade, o mistério inesgotável do ser humano. Nossa humanidade foi divinizada pela “descida” de Deus.“Sendo rico, Cristo se fez pobre para que nós participássemos de sua riqueza” (2Cor. 8,9).

Ao aproximar-nos da Gruta de Belém, com todos os nossos sentidos abertos, começamos a intuir que tudo foi alcançado pelo amor encarnado de Deus. Belém é Deus que entra em nossa própria casa.
Acolhido pela natureza, presente na Gruta, Deus se deixou impactar por tudo aquilo que o rodeava. Tudo isso é Deus na nossa carne quente e mortal. Um Deus que “adentrou” na humanidade e de onde nunca mais saiu; um Deus que agora pode ser buscado em nossa interioridade e em tudo o que é humano. Na pobreza, na humildade da própria história pessoal, inserida na grande história da humanidade, torna-se possível acolher o dom do amor de Deus visível na Criança de Belém.
“Não basta ajoelhar-se uma vez ao ano frente ao presépio para que a vida humana seja inundada da vida divina; antes, é necessário que toda a vida esteja em contato com Deus” (Edith Stein)

Celebrar, louvar e reverenciar o nascimento de Jesus, tem a ver também com poder honrar nossas raízes, despertar nossa criança escondida em nosso interior.Jesus foi desalojado de nossos natais. Daí a urgência em nos aproximar da realidade de Belém.
Deus aparece como Menino mostrando-nos que a verdadeira dimensão do ser humano é “fazer-se criança”. É preciso retornar à infância para entrar na gruta de Belém; é preciso desbloquear em nós as fontes da inocência e da bondade. Dentro de todos nós há um menino adormecido. O ser humano precisa despertar esse menino, porque é o melhor que existe em cada um.
Sabemos que somos habitados pelo Mistério e, portanto, compartilhamos o mais essencial de nossas vidas, que se manifesta em forma de bondade, amor, compaixão...

Ao entrar na gruta para contemplar o Menino-Deus, acessamos, ao mesmo tempo, o mais profundo do coração humano, carregado de compaixão e generosidade. A bondade humana é uma faísca que pode se atrofiar, mas jamais se apagar. São necessários alguns momentos densos para que esta chama seja ativada. A vivência do Natal é um deles.
Em Belém somos pacificados de nossas ansiedades e pressas de fazer mais e de conseguir mais, de nossa sede de poder e de acumular mais; e se permanecemos em silêncio ali, diante do menino deitado no presépio, brotará em nós um desejo profundo de sermos mais humanos; ao mesmo tempo, brotará um desejo de venerar cada ser humano, de contemplá-lo em seu interior, esse lugar ainda não profanado em cada pessoa, o lugar de sua infância e de sua paz.

Hoje, percebemos que o ser humano tem perdido o contato e a comunhão com a própria interioridade, recusando receber a seiva que a todos alimenta; ele está conectado com tudo e com todos e, no entanto, tal conexão não lhe nutre, nem lhe oferece sentido à sua existência. A compulsão dos meios eletrônicos que o ameaça de superficialidade, de individualismo e de isolamento..., tem provocado nele toda espécie de mal-estar, de doenças, de conflito e divisão, de insegurança, de ansiedade, de solidão, de aridez existencial...

É aguda a consciência de uma fragmentação do eu interior.
A verdadeira nobreza do ser humano consiste nisto: há nele “algo” de interior, decorrente desua profunda conexão com a Vida,de onde recebe a seiva que o nutre e o faz entrar em relação com tudo e com todos; há nele uma força latente, como uma energia fundamental, que o impulsiona a viver, que o ajuda a crescer e a melhorar continuamente, aumenta a sua capacidade de resistência, estimula-o a alcançar aquilo que é o sentido de sua própria existência: a verdade, a liberdade, o bem, o amor...
Com a presença desta força interior, a pessoa se sente guiada pelo seu dinamismo, que lhe proporciona saúde física, lucidez mental e limpidez afetiva. É esta força que comanda os melhores momentos da vida humana como um princípio ativo, dinâmico, criativo... Taisforças primordiais, vitais, presentes nas diferentes etapas do crescimento, são essenciais ao ser humano, graças às quais ele se orienta diante das soli-citações da vida pessoal e das múltiplas escolhas, constrói a sua vida pessoal, reforça as relações comu-nitárias e sustenta o seu compromisso solidário no caminho em direção à plenitude do seu ser.
Quando o acesso à gruta interiorpermanece bloqueado, o ser humano perde a direção, seca a criatividade e o gosto por viver, não faz progredir a sua potencialidade e demite-se da própria vida.

Natal não só nos conecta com o que há de mais divino em nós, mas nos conecta também com o divino presente em toda pessoa humana, pois o Filho de Deus, com sua encarnação e nascimento, se uniu a todo ser humano. Natal faz referência à nossa comum humanidade, ou seja, nos revela que nossas vidas estão estreitamente interconectadas, e por causa desta conexão, somos responsáveis uns pelos outros. Nós nos humanizamos através dos outros. Precisamente porque cada um é parte inseparável do tecido da humanidade, o que um faz ou deixa de fazer tem consequências nas vidas dos outros.


Texto bíblico:Lc. 2,1-14

Na oração:Na presença do Menino Jesus tudo é ilu-
minado, tudo é aceito, tudo encontra seu lugar, nada é recusado.
Tudo fica transformado pela irradiação da luz que emerge a partir de dentro; e há muito mais lugar do que poderíamos chegar a imaginar, muita dignidade e muita beleza. Diante de tal luz nos fazemos “lugar puro”; e a vida inteira passa a ser presépio, gruta, espaço sem limites onde acolher os outros.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

“SENTIR MARIA”, A IMACULADA



“SENTIR MARIA”, A IMACULADA

“...encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30)

Certamente, cada “concepção” é um “mistério” de vida sagrada. Cada concepção é “in-maculada” e cada princípio de vida é santo, desde o “ventre” da mãe.
Hoje a liturgia celebra a festa da Concepção, dia do amor “secreto” de Joaquim e Ana, dia que marca o princípio do que será o caminho aberto na vida de Maria, que começa já no “ventre santo” de sua mãe.
Para além da realidade do puro pensamento, o “dogma da Imaculada” pertence á esfera do sentimento cristão. Nesse contexto, a comunidade cristã quis descobrir um “lugar de graça”, uma experiência, uma vida “sem pecado”, e viu que Maria, a Mãe de Jesus, é também Imaculada.

O “dogma da Imaculada” não é um dogma que se impõe à razão e que é preciso crer à força (isso seria imposição doutrinal), mas é o que ilumina e impulsiona o pensamento e o sentimento dos cristãos.Nesse sentido, um dogma que nos faz “sentir Maria”. Esse dogma expressa o fato misterioso de que ela foi transparente ao desejo de Deus, dialogando com Ele em liberdade, fazendo-se mãe do Filho divino. É um dogma aberto a todos os homens e mulheres que, por sua fé e seu compromisso, querem superar a trava do pecado, abrindo-se à vida pura da terra limpa, do amor imaculado, da justiça universal.
“Sentir Maria” é reencontrar em nós mesmos aquilo que diz sim à vida, quaisquer que sejam as formas que esta vida tomar. “Sentir Maria” é superar toda expressão de desconfiança, de dúvida, de temor diante daquilo que a vida vai nos dar para viver.
É assim que se fala de Imaculada Conceição. O Verbo é concebido no que há de mais imaculado no ser humano, no que há de mais completamente silencioso e íntimo. Isto supõe que haja no mais profundo da pessoa um lugar onde não existe limitação, mas a fonte de onde nasce a vida.

Em todos nós, algo de bom, de inocente, de imaculado, continua a dizer “sim” ao incompreensível Amor... O ser humano é “capaz de Deus”. É preciso encontrar, entre nós mesmos, este lugar por onde entra a vida, este lugarpor onde entra o amor. É uma experiência de silêncio, uma experiência de intimi-dade, alguma coisa de mais profundo do que aquilo que se chama o pecado original.
Charles Peguy dizia que “Maria é mais jovem que o pecado”. Isto quer dizer que existe em nós alguma coisa de mais jovem e de mais profundo, anterior ao pecado, que é a beatitude original.
Falamos demais sobre o pecado original e muito pouco sobre a beatitude original. Existe em nós uma realidade mais profunda que a nossa resistência, um sim mais profundo que todos os nossos “nãos”, uma inocência original que todos os nossos medos e feridas... É preciso encontrar a confiança original.
Maria é o estado de confiança original.Assim, os Antigos Padres viam nela um arquétipo da beatitude original, a mulher da pura confiança, dosim original Àquele que É.
Maria é a nossa verdadeira natureza, é a nossa verdadeira inocência original, aberta à presença do divino.

Mas Maria não é Imaculada só (e sobretudo) em sua Concepção, senão em sua vida inteira; Ela se faz Imaculada, em atitude constante de diálogo com Deus e de abertura (entrega) ao serviço dos outros, por meio de Cristo, seu filho. Não reservou nada para si, tudo colocou nas mãos de Deus, para serviço e liber-tação da humanidade. Maria não dialoga com Deus para si mesma, senão em nome de todos os homens e mulheres e para o bem do mundo inteiro. Rompe assim a cadeia de mentiras, de egoísmo e de violência que tem suas raízes na origem da humanidade. Este é um dogma da Igreja que se reconhece em Maria e que quer também ser “imaculada”, colocando-se a serviço da obra libertadora de Deus.
Por isso dizemos que Maria é Imaculada com todos, por todos, para todos, para “nosso próprio bem e salvação”. Nesse sentido dizemos que ela é Imaculada como referência única de uma humanidade que também é capaz de escutar Deus e de responder-lhe; ela é Imaculada porque nos “des-vela” que também nós podemos romper as amarras que nos desumanizam; ela é Imaculada porque “re-vela”que o ser humano é “lugar” de abertura a Deus, que é possível viver em liberdade, dialogando com os outros, a serviço da comunhão e da vida.

Maria é o verdadeiro Templo, é espaço de presença do Espírito, lugar sagrado onde habita a divindade para, a partir dela, expandir-se depois a todo o povo. Ela é lugar de plenitude do Espírito, terra da nova criação, templo do mistério.  Evidentemente, esta presença é dinâmica: o Espírito de Deus está em Maria para fazê-la mãe, lugar de entrada do Salvador na história.
Ela não é um instrumento mudo, não é um meio inerte que Deus se limitou a utilizar para que fosse possível a Encarnação. Maria oferece ao Espírito de Deus sua vida humana para que através dela o mesmo Filho Eterno possa entrar na história.
Toda envolvida pelo amor divino, Maria soube colocar-se, em total disponibilidade, nas mãos de Deus, para cumprir sua santa vontade: “Eis a serva do Senhor, faça-me em mim conforme a tua palavra”.
Por isso a “Imaculada Conceição”é um dogma teologal, ou seja, expressa a certeza de que Deus quis comunicar-se de maneira transparente com os homens; buscou e encontrou em Maria uma interlocutora privilegiada,capaz de escutá-lo e responder-lhe, compartilhando seu mesmo desejo de Vida plena. É um dogma sobre Deus, que não quer o “pecado” dos homens e mulheres, mas o amor que cria e dá a vida.
Uma tal comunhão com Deus excluía qualquer traço de egoísmo e de pecado. Só a plenitude da graça (“cheia de graça”) permitiu-lhe ser totalmente despojada de si para cumprir o projeto de Deus. Daqui brota a fé de que Maria, mesmo antes de nascer, foi preservada do pecado.

A festa da Imaculada Conceição leva-nos, portanto, a pensar em Maria como aquela que, movida pela Graça realizou-se como pessoa que acolhe o desejo de Deus e lhe corresponde com seu mais profundo desejo. Ao encarnar-se por meio dela, Deus não se impôs a partir de cima ou de fora, mas deseja e pede sua colaboração; por isso lhe fala e espera sua resposta, como indica o texto de Lucas, uma cena simbólica que pode apresentar-se como diálogo do consentimento: Maria respondeu a Deus em gesto de confiança sem fissuras; confiou n’Ele, lhe deu sua palavra de mulher, pessoa e mãe.
Ambos se uniram para compartilhar uma mesma aventura de amor e de graça, a história divino/humana do Filho eterno.

Para isso, a liturgia desta festa nos convida a focar a atenção no momento da Encarnação de Jesus, como fruto de um profundo diálogo entre Maria e o anjo de Deus. É no seu diálogo de amor fecundo com Deus que podemos e devemos afirmar que Maria é Imaculada. Nessa linha, a Igreja pode afirmar que Maria é (e foi se fazendo) Imaculada ao dialogar com Deus em profundidade pessoal.
Deus mesmo quis conduzi-la desde o momento de sua origem humana (concepção), como conduz cada homem e cada mulher que nascem neste mundo.Ali onde um frágil ser humano (uma mulher e não uma deusa), pode escutar Deus em liberdade e dialogar com Ele em transparência, surge o grande milagre: o Filho divino já pode existir em nossa terra.

Texto bíblico:Lc 1,26-30

Na oração: entoar um hino de louvor, reconhecendo as “maravilhas” de Deus em sua vida;
dar-se conta das beatitudes originais presentes no seu interior: compaixão, bondade,
mansidão, busca da justiça e da paz...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Lucas 20,27-38

VIDA: ensaio de eternidade

“Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para Ele” (Lc 20,38)

Vida! Qual vida! Toda a vida...é sempre um dom!
Balbuciando o mistério do “Deus Vivo”, o cristão torna-se capaz de tocar em profundidade o mistério da Vida do Criador presente em cada expressão de vida entre nós.A vida é uma dádiva que supera todas as promessas; frá-gil na sua moldura, efêmera na sua manifestação... mas esta é a nossa certeza maior: navegar nas ondas inquietas da vida nos capacita para sentir o Invisível que nos circunda.
Nessa vida profunda e compartilhada, na ferida e no abraço, no ruído e no sussurro, no fracasso e na vitória, na ausência e no encontro... Deus nos saúda, nos acolhe, nos chama e nos diz: “escolhe a vida!”
Deus mesmo, autor e fonte da Vida, está no âmago da vida, faz dela seu “templo”, ajuda-a, suscita-a, dá-lhe o impulso que a faz avançar, o apetite que a atrai, o crescimento que a transforma...
“Eu O sinto, eu O apalpo, eu O ‘vivo’, na corrente biológica profunda que circula em minha alma e a arrasta consigo. Quanto mais mergulho em mim, mais encontro Deus no âmago do meu ser; quanto mais multiplico as conexões que me ligam às Coisas, mais estreitamente Deus me circun-da. Ele que prossegue em mim a obra da Encarnação de seu Filho, tão longa quanto a totalidade dos séculos”. (Teilhard de Chardin)

Viver é uma arte. A “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor; por isso, o maior sacramento é ser gente, assumir a vida, viver com paixão e poder dizer a cada momento:“estou no horário nobre da vida”. São justamente os sábios e os místicos que nos ensinam melhor a celebrar o instante, a descobrir o sentido da vida através da experiência do cotidiano.
“Em vez de buscar o sentidoda vida, ensaie viver intensamente e vivendo intensamente você descobrirá o sentido da vida” (Dostoievski).
A surpresa e a riqueza de cada momento faz de cada instante da vida a antecipação do que será a vida plena. Viver a vida neste mundo, em comunhão com todas as expressões de vida, é conhecer a alegria de apostar como se fôssemos eternos. Podemos “viver de modo eterno” vivendo as experiências que são eternas: amar, perdoar, ajudar, compreender, aceitar, consolar...
A fé nos revela que fomos feitos por mãos celestiais, chamados à vida, para a liberdade, para a bondade, para a amplidão dos céus. Confessamos que a vida é de Deus e, como Ele, é eterna.

A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios o bastante para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Por isso não devemos nos preocupar com a morte, mas com a vida. A verdadeira pergunta não é: “existe vida após a morte?”ou “ na ressurreição, ela será esposa de quem?”
O místico e o sábio se perguntam:“existe vida antes da morte?”
Perguntar-nos sobre o que o pós-morte tem a nos oferecer é uma desfeita à vida.
A vida é tanta surpresa, tanta novidade e riqueza que querer especular sobre o que acontece depois dela é grosseria. O “depois da vida” é um grande encontro onde seremos perguntados:“o quanto você viveu sua vida?”
Alguém já teve a ousadia de afirmar que a morte é mais universal que a vida;todos morrem, mas nem todos “vivem”, porque incapazes de re-inventar a vida no seu dia-a-dia. Uma vida pensada sem morte perde-se, no final, na total irresponsabilidade.
Através do “viver para sempre” nos permitimos o prazer, a alegria, o desafio, a criatividade, a festa...
Através do “morrer amanhã” criamos em nós a responsabilidade para com o hoje, sobre aquilo que estamos fazendo com a própria vida, os sonhos não realizados, os riscos que não tomamos por medo...

No evangelho de hoje, os saduceus (setor aristocrático e conservador do judaísmo) apresentam a Jesus uma grosseria teológica: confundem a ressureição com um casuísmo sem fundamento. Eles supõem que Deus seja tão sem criatividade a ponto de repetir, na ressurreição, o mesmo esquema de nossas experi-ências atuais.
Jesus rejeita a infantil idéia de que a vida dos ressuscitados é um prolongamento desta vida que conhecemos.A condição das pessoas depois da morte será totalmente diferente da condição atual.
Aqui não se trata de satisfazer uma curiosidade, mas alimentar o desejo, a expectativa e a esperança confiada em Deus.
Por ser “Deus dos vivos”, a experiência da ressurreição consiste numa Nova Criação. Deus é fonte inesgotável de Vida e acolhe a todos em seu amor de Pai-Mãe. Nesse sentido, há uma diferença radical entre nossa vida terrestre e essa vida plena, sustentada pelo Amor criativo de Deus depois da morte. É Vida absolutamente “nova”, que deve ser esperada, mas nunca descrita ou explicada. As relações interpessoais não serão uma cópia do modo de ser desta vida. A Ressurreição é uma “novidade” que está além de toda e qualquer experiência terrestre e que é antecipada e preparada na maneira de “viver intensamente” esta vida.
E afirmar a ressurreição não é consolo ilusório, nem evasão do compromisso com a história e com a vida. É decisão firme de continuar o projeto de Jesus, de defender a vida onde quer que esteja ameaçada, de arriscar-se pelos mais fracos e excluídos para que tenham vida, de “viver dando morte à morte”, curando feridas, levantando corações, semeando esperanças, despregando crucificados.
A ressurreição nos faz compreender que esta vida terrestre não consiste em outra coisa senão no tempo da gestação concedido a cada um de nós para que, dentro desse imenso ventre cósmico, possamos aprender a viver de amor e contemplar a obra do Artista.

Texto bíblico:Lc 20,27-38

Na oração:“Senhor, saiba eu caminhar sob o impulso da Vida, aceitando crescer graças ao diferente.
As cordas da minha vida sejam dedilhadas pelo delicado sopro de vosso Espírito”.

Caminhada Contemplativa: Contemplar a vida no seu mundo cotidiano. Em sua cidade, perceber a vida:
talvez uma árvore em sua rua, uma flor na janela, animais e pássaros anônimos em meio à selva de pedra... E, sem dúvida, gente, muita gente, com preocupações, com dúvidas, com medos, com sonhos, com histórias anônimas que nunca vêm à luz.
Quando caminhar pelas ruas, preste atenção aos rostos. Imagineos relatos que escondem. Procure entender que há uma força vital que nos une a todos.
E então dê graças a Deus por tantas vidas, por fazer parte de um mar de vida, que às vezes é tormentoso e outras, pacífico, mas sempre incrivelmente belo.