quinta-feira, 30 de junho de 2011

Próximo domingo é festa de S. Pedro e S. Paulo.
A primeira leitura (Atos 3,1-10) é tremendamente provocativa para quem tem como
ministério "cuidar" das pessoas.
Uma boa oração a todos
Abraço
Pe. Adroaldo sj


ESCUTAR (COM) OS PÉS



“Conhece-se a Deus pelos pés” (Carlos Mesters)



Atos 3,1-10: Pedro e João iam diariamente ao templo; um homem, coxo de nascença, posta-se junto à

                    porta do templo de Jerusalém. É um ponto estratégico.

Em lugar de caminhar, assiste os caminheiros. Aprendeu a aproveitar-se deles, pedindo esmolas.

Nem Pedro e João escapam. Às palavras de Pedro, reage dando um salto. Lucas relata que “no mesmo instante os pés e os tornozelos do homem ficaram firmes; de um salto ficou de pé e começou a andar. Entrou com eles no Templo, andando, saltando e louvando a Deus” (v. 7-8).

Salta para um novo caminhar, salta ainda mais para um novo ser. Salta da vida sem graça, limitada a pedinte da margem da porta do templo, para a graça da vida de caminheiro solidário.

Eis a missão do cristão: ajudar as pessoas a se colocarem de pé, resgatando-as em sua dignidade para serem capazes de andar pelos seus próprios pés.

Não cabe ao cristão carregar as pessoas com seu paternalismo. Antes, sua missão é vê-las maduras, entrando por seus próprios pés na presença de Deus.



A existência humana pode ser petrificação, sonolência, estagnação, medo, repetição, inércia e fixismo. Mas ela pode ser conduzida também com sabedoria e imaginação. O movimento criador pode superar o maras-mo e a acomodação; nosso interior contém potencial para vencer a inércia e superar o medo do desco-nhecido, do fracasso, da desilusão... Carregamos sonhos e desejos, mas podemos correr o risco de con-vertê-los em uma contínua espera, em algo parado que não se materializa.

Há um momento em que, para alcançá-los, temos que saltar; saltar é humanizador e plenificante.

O salto autêntico reclama coragem àquele que está prostrado; de tempos em tempos precisamos de saltos que nos ajudem a superar o medo e nos garantir a autonomia e a construção de nossa própria história.

O salto original gera o crescimento da humanidade. É salto que ama as pessoas, que ergue os fracos, que promove a justiça, que preserva a paz, que semeia a esperança, que respeita o diferente, que congrega povos, que dinamiza os talentos pessoais, salto que valoriza compromissos.



É importante descobrir o real significado do salto que nos arranca do passado paralisante e nos lança na aventura que modela a vida pessoal, social, ética, religiosa, histórica...

O salto inteligente estimula a criatividade e rejeita a mediocridade.

Para isto, devemos suscitar e cultivar o legítimo “salto”, que é fenômeno inovador e fecundo. Isso impli-ca pisar o solo com a confiança de que sabemos que a vida está cheia de novas possibilidades, de metas que ainda não superamos, de encontros que ainda não se realizaram, de chamados aos quais ainda não respondemos, de compromissos ainda não assumidos...

Construir a vida que queremos implica saber saltar, saber partir e deixar para trás nossa situação de comodidade, os lugares cotidianos onde nos movemos como peixe na água, onde nos sentimos seguros. Há um impulso interior que nos convida a saltar, do conhecido ao novo: um novo projeto, um novo compromisso, uma nova missão. Isso implica momentos de risco, mas também ali está a serena confiança de que podemos e queremos saltar. Não no vazio, mas no encontro.



É importante ter clareza da direção para onde saltamos. O salto lúcido mantém o olhar vigilante, de discernimento: em que direção saltar? Há saltos equivocados: salto amargo, salto pessimista, salto frustra-do, salto mortal, salto no escuro... O salto infatigável concretiza as aspirações do futuro.

O verdadeiro salto humano envolve a totalidade do ser e tem sentido de inovação. É o salto criativo, da transformação permanente, que acorda o espírito, solta a liberdade, assume a responsabilidade e aponta o destino inédito. Salto é também ruptura; há salto que só se realiza com a quebra da rotina para poder acolher o novo e surpreendente. E cada salto inspirado é impulso para novo salto.



Para poder dar o salto criativo precisamos destravar e fortalecer os nossos pés.

Lembremo-nos, antes de tudo, desta expressão: “a planta dos pés”. Esta planta clama por raízes. Os pés escutam a terra e nos enraízam na realidade histórica. É difícil ter os pés sobre a terra...  Podemos sentir isso se “escutarmos”  bem nossos pés.

Segundo a tradição oriental, quanto mais próximo do chão estiver o corpo, mais feliz fica a mente. O Ocidente deseja que as pessoas pensem no céu, e alonguem a cabeça no ar para fazê-las olhar para cima e ver as nuvens. O Oriente sabe que a melhor maneira de chegar ao céu é pisar solidamente na terra.

Ao encontrar-se com a mãe-terra a pessoa é impulsionada para as experiências transcendentais.



Quanto mais proximidade e intimidade com a terra, mais profunda é a experiência espiritual.

Na Índia, quando as pessoas se levantam, sua primeira oração é juntar as mãos e pedir perdão à Mãe Terra por pisá-la. Que não haja ofensa no contato necessário, mas intimidade.

Em casa, as pessoas sempre andam descalças. O pé nú acaricia a terra que pisa, agradecendo o apoio e mostrando sua confiança. Cada passo deve ser uma oração e cada caminhar é um rosário de contas que marcam os caminhos da vida com a fé do caminhante.

Dá força e inspiração sentir-se junto à terra, apalpar sua firmeza, medir sua imensidade.

É o altar cósmico sobre o qual celebra-se diariamente a liturgia da vida.

Não há uma “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. É a nossa maneira de caminhar sobre a terra que a torna sagrada.

Mudar o nosso modo próprio de caminhar, mudar o nosso modo de colocar o na terra, não é somente uma terapêutica psicossomática, mas pode ser um exercício espiritual. É aceitar-nos em nossa dimensão terrosa, adâmica.



O equilíbrio do corpo, o equilíbrio do nosso psiquismo, o equilíbrio de nossa vida espiritual depende deste enraizamento. E se as raízes são sadias, toda a árvore é sadia. Algumas vezes somos jardineiros, muito atentos à flor e ao fruto, mas esquecemos as raízes, esquecemos os pés.  

É por aí que devemos começar os nossos cuidados.

Algumas vezes, nossos pés são vulneráveis.

A tradição dos Padres do Deserto nos diz que todos nós temos os pés feridos e maltratados. Não temos mais o prazer em viver e em amar. E temos necessidade de sermos cuidados e curados no nível de nossos pés. Precisamos fazer o caminho que vai dos “pés inchados e feridos” aos “pés alados”; partimos de nossos pés pesados, pesados de memória, como se tivéssemos um fardo de memórias para carregar conosco. Sentimos que este fardo de memória nos entrava a marcha e nos impede o caminhar.

É preciso cuidar dos próprios pés para que eles possam reencontrar suas asas; poderemos, então, cami-nhar sobre a terra com os pés livres, leves, soltos. Assim, como seres humanos, reencontraremos nossa condição divina.



Em muitas tradições espirituais (como no Evangelho), o Mestre lava os pés dos seus discípulos. De um ponto de vista simbólico, “lavar os pés” de alguém é devolver-lhe sua capacidade de sentir-se enraizado, é recolocá-lo de pé.

Quando Pedro e João escutam o clamor do “coxo de nascença” eles param e expressam um um gesto de cura e de amor, prolongamento do gesto de Jesus no “lava-pés”. Porque não se pode amar alguém e olhá-lo de cima. E também não se trata de olhá-lo de baixo para cima, sendo-lhe submisso.



Trata-se de  colocar-se a seus pés para ajudá-lo a reerguer-se.

Finalmente, a palavra pé, “podos” em grego, está estreitamente relacionada à palavra “paidos”, usada para significar criança. Assim, um pedagogo é um especialista que cuida dos pés do ser humano, desde que cuidar dos pés de alguém significa cuidar da criança que está nele.



Textos bíblicos:   Jo. 12,1-8  Jo. 13,1-15  Gen. 32,23-33

Coincidência?

José Maurício e Fábio foram trabalhar no Rio de Janeiro e se encontraram...
Bom demais né!!


terça-feira, 28 de junho de 2011

Missa com benção dos aniversariantes !





Ontem tivemos uma missa muito linda com a presença do querido Padre Cícero,que no final abençoou os aniversariantes do mês ( só faltou a Bia Moraes- Parabéns minha querida amiga ).
Parabéns a todos os aniversariantes , que Santo Inácio os abençoe!!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Reunião de Grupo em Junho. Coordenação do Zé Maurício e da Ana Paula ! Especiais !!!


Com a presença ilustre do "Nosso Bispo" e sua esposa.



HOSPITALIDADE HUMANIZADORA



“Deus não perguntará a dimensão de vossas casas, mas quantas pessoas acolheis nelas”



O contexto social pós-moderno nos coloca numa situação inusitada: milhões de pessoas “hospedam-se” em nossas casas virtualmente, mas ninguém fisicamente. Podemos encontrar algumas características próprias de nosso tempo que complicam de modo peculiar a vivência da hospitalidade; daí as dificuldades que o ser humano atual tem para abrir-se e escutar uma voz diferente da própria, bem como uma disfarçada resistência para acolher a grandeza do mistério do outro que vem ao seu encontro.Há um medo generalizado do outro, do diferente... e as casas se tornaram verdadeiras fortalezas, cercadas de parafernália eletrônica de segurança.

No entanto, a virtude da hospitalidade é um modo de proceder característico do seguidor de Jesus: “quem acolhe a um destes pequeninos é a mim que acolhe”; implica a capacidade de abertura e acolhida daquele que vem de “fora”, o estranho.

A hospitalidade é uma das múltiplas manifestações da capacidade de amar. O amor verdadeiro se exprime, sobretudo, através de uma relação em que o outro é acolhido como próximo.

A melhor metáfora da hospitalidade é a imagem da mãe que “faz espaço dentro de si para acolher o outro” e assim multiplica a vida.



A hospitalidade se apresenta como um valor humano e espiritualmente vital, conectado, ao mesmo tempo, com a vulnerabilidade do ser humano que sempre requer ser acolhido e aceito, que sempre precisa encontrar  espaços humanizadores de convivência e comunhão.

Essa relação de hospitalidade supõe abrir-se de verdade à realidade do outro, sem reduzi-lo às nossas projeções nem submetê-lo às nossas categorias mentais, sem anular seu mistério e contando com o imprevisível, com o inesperável, com o radicalmente novo; em definitiva, com o que supera o plano das  nossas expectativas.

Quem acolhe um hóspede parece estar dando algo, mas, na realidade está recebendo. Se a hospitalidade é “receber” uma pessoa, o hóspede é um dom para nós.

Receber as pessoas com atenção, escutá-la, pode ser uma ocasião para receber a única coisa verdadeira-mente necessária. A hospitalidade implica uma integração entre escuta e serviço.

Por isso os pobres são especialistas em hospitalidade e acolhida.



Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar   laços, construir fraternidade, acolher o diferente, fortalecer a comunhão. O olhar do outro é o fato originante da fraternidade.

O ser humano está comprometido com os outros; por sua própria natureza, ele se torna pessoa humana somente em interação com os outros; ele possui impulsos naturais que o levam em direção ao convívio, à cooperação, à comunhão...; ele é reserva de humanidade e compromete-se com a dignidade humana.

Estamos sempre em contato com o “outro”. E o outro é pessoa. O outro revela certa magia, ao mesmo tempo sedutor e enigmático. O outro é plural, apresenta múltiplos rostos; é diferente, inédito...

Num mundo em que a competência se degenera em competitividade sem limites, e em que o individua-lismo e a falta de solidariedade criam novas fronteiras e exclusões, é preciso recuperar o discurso e a prática do “ser-para-os-outros”, o saber e o agir como serviço, a solidariedade, a compaixão, a partilha, o perdão, a gratuidade, a hospitalidade, o dom de si mesmo, o amor...



A experiência de viver permanentemente sob o olhar compassivo de Deus nos permite descobrir que “o ser-com” e “o ser-para”  é a autêntica condição humana que se desloca em direção ao outro, na arte de deixar e abrir lugar ao excluído, ao estranho, ao “sobrante”...

A hospitalidade implica também iniciativa de sair do próprio “lugar” e mergulhar no lugar do outro.

O filme “Diário de motocicleta”, de Walter Salles, tem uma cena em que Ernesto Guevara decide, na noite de seu aniversário, mergulhar no rio que o separava da comunidade de hansenianos.

Naquele momento, Che optou pela margem oposta – a da cidadania e da solidariedade. Não ficou na margem em que nascera e fora criado, cercado de confortos e ilusões.

Essa “travessia” não é apenas geográfica; trata-se de uma experiência que requer a atitude de abrir-se ao outro como diferente; e isso implica em “passar” para o seu lugar, aprender a ver o mundo a partir de sua perspectiva, deixar-se questionar e desinstalar-se pelo outro, despojado da condição de pessoa.

Não se trata de “dar coisas” mas deixar-se “afetar cordialmente” pela situação do outro.



A hospitadade nos leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído, marginalizado...) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação; ela gera protagonismo e nunca dependência; compartilha sem humilhar; cria humanidade em seu entorno, com generosidade, humildade e silêncio; supera todo exibicionismo, sentimentalismo ou instrumentalização do outro.

No Evangelho, Jesus deslocou Deus, transferindo seu “habitat” do templo para o corpo daquele que está à “beira da estrada”. O excluído é doravante, a revelação da Sua presença.

“Onde está Deus?”: está lá, onde ninguém O espera; quem não é “nada”, O hospeda e O aponta.

O motivo pelo qual o lugar de onde Deus fala é o excluído da vida é porque é desse lugar que Ele convo- ca o eu para “fazer estrada”, viver o êxodo permanente, gerando-nos continuamente para a responsabili- dade como pura gratuidade e generosidade.

É o rosto do outro que derruba o eu de seu pedestal e de seus preconceitos e o convoca à bondade, à acolhida, à compaixão. A experiência cristã entende a hospitalidade como hábito do coração; não é um evento, um ato isolado; ela fermenta, dá calor e sentido ao nosso cotidiano e se encarna nos pequenos gestos de inclusão. Importa “re-inventar” com urgência a hospitalidade como valor ético e como atitude permanente de vida.



A hospitalidade alimenta coragem de romper as fronteiras do preconceito, da indiferença e da intole-rância; ela impede que as fronteiras se transformem em frias barreiras, ou seja, distância e negação do outro. Muitas vezes, já não sabemos quem são os outros, como vivem..., e passamos a acreditar que o nosso modo de viver, nossa cultura, é o centro do mundo. Quando não se vê o resto do mundo, o centro somos sempre nós. Com isto, a fronteira que carregamos dentro se torna rígida, porque nos sentimos inseguros, carregados de medos, muitas vezes medos ocultos, inexplicáveis, inconscientes...

Sair de si mesmo é um grande risco; por isso mesmo muitos não querem passar por isso. No entanto, sem isso, não seremos afetados e mudados pelos outros. Esta capacidade humana de encontrar o outro, entrar na vida do outro e deixar que a própria vida seja questionada pela presença do outro é a qualidade maior daqueles que alargam sua hospitalidade e não se deixam dominar pelo medo e pela suspeita.

O encontro com o diferente é verdadeiramente o único modo para superar as dificuldades que temos para abrir-nos aos outros.  Quando nos encontramos, encontramos pessoas vivas que tem idéias, imaginação, criatividade, com as quais podemos crescer e com as quais podemos nos relacionar.

No encontro com o outro temos uma oportunidade única de encontrar-nos a nós mesmos.



A hospitalidade do outro diferente é inata, mas pode ser ativada através de diferentes mediações: familia, esco-la, igreja... A impressão geral hoje é que tais instituições se encontram deslocadas frente à realidade, reforçando a exclusão. Daí brotam a indiferença, o pré-conceito, a frieza social, a carência de espírito voluntário, de compromisso com os excluídos...




A vivência cristã consiste em abrir todas as janelas do interior das pessoas, para que cresçam e tenham o direito de fazer-se sensíveis a todas as realidades humanas e naturais do mundo. Abrir, comunicar hábitos mentais, ativar os afetos do coração, expandir relações, reforçar a hospitalidade: só assim podemos formar pessoas flexíveis, abertas, que não sentem medo diante do outro ou de algo diferente, mas que estão prontas para apreciar todas as possibilidades humanas. Com isso, elas estarão dispostas a correr o risco de ter empatia, compaixão, proximidade com outros, poderão abrir as portas de sua casa, de seu coração, de seus talentos para caminhar com eles.



Textos bíblicos:  2Reis 4,8-16   Mt. 10,37-42

sábado, 25 de junho de 2011

Queridos companheiros de Caminhada, parabéns pelos 25 anos de casados !

Cris e Antônio,me desculpem pelo pouco tempo de filmagem,mas fui pega de surpresa e o celular estava sobrecarregado. Mas mesmo assim eu não poderia deixar de registrar esse momento tão especial.
Parabéns !!!
Que a família de vocês seja muito abençoada.








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terça-feira, 21 de junho de 2011

ESPIRITUALIDADE DO CORPO



“Jesus: CORPO de Deus entre nós, CORPO que se dá aos homens, CORPO para os corpos,
como carne e sangue, pão e vinho. E o CORPO de Deus, Jesus Cristo, se expande,
 incha,
tomando o universo inteiro...

É bem aí, no CORPO, que Deus e o homem se encontram.

A humanidade  de Deus nos incomoda. Coisa que os primeiros cristãos
 descobriram com espanto.

Eles entenderam que para falar de Deus é necessário deixar de falar de Deus, e falar sobre um homem,
um rosto, uma vida... Foi então que eles ficaram cristãos.

Deus, para falar de si, tornou-se homem. Fala sobre Deus é fala sobre um homem.

          A PALAVRA se fez CARNE. Nosso irmão.
Um de nós. Nasceu, viveu, morreu... ressuscitou” (Rubem Alves)



“A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice,
onde se bebe o vinho
da alegria e da salvação, inserido no CORPO místico e cósmico de Cristo.
Só haverá futuro
digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão,
saciados da fome de pão e de beleza” ( Frei Betto).



Celebramos o “Corpo de Cristo”, uma das festas mais ricas que nos
faz pensar em seu conteúdo
 e sim-bolismo, mas que nos faz pensar também neste “Corpo de Cristo” no meio de
 tantos outros corpos.

Aceitamos, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica
comunhão bem maior
com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade,
dedicação pela transformação
de tudo aquilo que não dignifica a vida ou não dignifica os “corpos”.

Participamos, com muita fé, dedicação e respeito,
das celebrações do “Corpo de Cristo”,  
mas pode ser que, às vezes, f
açamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos
e a realidade que nos cerca, ou seja, os famosos “corpos”: e
xplorados, manipulados,
 usados, escravizados, destruídos...

Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo
e pre-sente na Eucaristia”,
e não o vejamos nos “corpos” que estão aí, aqui, ali, lá,
dos nossos lados...

Parece que não sabemos lidar muito bem com esse estranho
e (des)conhecido que são os nossos
 “cor-pos”.
Do corpo temos tido suspeitas e o temos olhado com desconfiança.

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo.
Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas
de uma descoberta radical.
Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo;
é preciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe,
a importância do que tem a nos dizer, a necessidade de seu
apoio e a sabedoria de sua amizade.

Aqui está nosso melhor amigo, fielmente a nosso lado,
e nem sempre o percebemos.



A corporeidade penetra toda a nossa auto-realização como seres humanos.
O corpo não é simplesmente “organismo vivo” ou
mera “exterioridade” ou
mero “instrumento do espírito”.
O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito,
o lugar onde o “Verbo se fez carne”.

Por meio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus,
 a carne se converteu em espelho
da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

O corpo é de importância máxima para a experiência que temos de nós mesmos e para a
comunicação com Deus, com os outros e com a natureza.

A consciência do respeito e do valor ao corpo é necessária para a maturidade afetiva.
A desvalorização do corpo, por outro lado, resulta na mutilação da expressividade,
da comunicação de sentimentos e prejudica a maturidade afetiva-social-espiritual.

Uma relação negativa com a corporeidade equivale a uma relação negativa consigo mesmo,
com os outros e até mesmo com Deus. Não aceitar o corpo é atentar contra a vida.



A pessoa é uma totalidade unificada, um “todo espiritual”
e um “todo corpóreo”, tanto que
não existe fenômeno corpóreo que não tenha um reflexo no espírito, nem experiência espiritual
que não se reflita no corpo.
O corpo participa, de maneira imprescindível, na atuação do
eu espiritual e vice-versa.

A “linguagem espiritual” acompanha a “linguagem corporal”,
assim como a linguagem do corpo
reforça a linguagem espiritual.

O corpo fala por si mesmo, comunica, reage...
O corpo é expressão de nossa masculinidade
ou feminilidade, de nossa sexualidade integrada ou reprimida,
de nossa saúde ou doença,
de nossa alegria ou tristeza, realização ou frustração,
de nossa consolação ou desolação.

O corpo é expressão e comunicação daquilo que somos.



O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher:
 “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A espiritualidade cristã é “encarnada”.



A Encarnação  foi o caminho que a Trindade
 escolheu para se aproximar da humanidade e fazer
história conosco. Nosso corpo humano,
 feito de barro – vaso frágil e quebradiço –
tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19)

O nosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.



A Encarnação de Jesus não autoriza qualquer desprezo da corporeidade;
pelo contrário, valoriza o ser humano na sua totalidade (Mc. 2,9-11).

Jesus cura a pessoa toda a começar pelas doenças do corpo, doenças psicológicas e espirituais.

Cultivar o corpo para recuperar a saúde, combater o stres, harmonizar mente e corpo,
razão e emoção, isto é benéfico.
A deturpação desumanizante do corpo aparece quando
ele é visto como fim em si mesmo.

Temos muitas ofertas para o corpo: ginásticas, academias,
cosméticos, bioenergéticas, yoga, dança,
expressão corporal, cirurgias plásticas, implantes, massagem...

Cuidar sim, idolatrar não;
é preciso caminhar para a superação do medo do corpo,
mas sem idolatrá-lo.



O corpo se plenifica na comunhão com outros corpos,
com Deus e com o corpo da natureza.
Nosso humilde corpo é parte da Criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza.







Nosso corpo é pura relação.
Nele ficam registradas todas as marcas de nossa vida, de nossa história.

A pele é a memória mais fiel de tudo o que nos acontece externamente.

O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto,
falam os olhos, falam os
movimentos e as posturas, falam os gestos,
 acompanhando, reforçando e expressando
a intenção íntima.

É no corpo que o eu da pessoa historicamente se constitui em relação aos outro e às suas escolhas.

E a relacionalidade expressa pelo corpo não deve ser compreendida
só em uma dimensão horizontal;
essa se entrelaça com uma relacionalidade de tipo vertical que a fundamenta
e a caracteriza em direção do Absoluto.



Texto bíblico:  Jo. 6,51-58



Na oração:  Nosso corpo é tocado pela encarnação de Jesus. 
E lembre-se de que Deus conhece
 nossa estrutura.
Ele sabe de que barro somos feitos.
Reze sua humanidade, seu corpo de homem ou mulher.
Leve para sua oração
os desafios do coti- diano, os imprevistos da vida.

Seja humano diante de Deus, deixe seu corpo falar a Deus.

Reze com seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.